Crítica e controle normativo: as comissões de música sacra no catolicismo pré-conciliar e as práticas musicais religiosas do presente

Fernando Lacerda Simões Duarte
CAPES/PNPD – PPG-Artes/UFPA – lacerda.lacerda@yahoo.com.br

Este trabalho procura compreender a atuação das comissões de música sacra – particularmente a do Rio de Janeiro – enquanto organismos de controle das práticas musicais anteriormente ao Concílio Vaticano II (1962-1965). Questiona-se também o papel destes organismos no presente. A análise dos dados obtidos em pesquisa bibliográfica e documental revela um alinhamento entre a crítica musical e o conceito de controle normativo. Um olhar para o presente sugere novas atribuições das comissões e a manutenção, ainda que discreta, da crítica.

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Institucionalização da música contemporânea brasileira: a crítica musical como índice do processo de racionalização (1975-1980)

Danilo Pinheiro de Ávila
Universidade Estadual Paulista/Campus Franca – danilo.avila@gmail.com

Esta comunicação visa compreender a dinâmica da institucionalização da música contemporânea brasileira através das críticas musicais da segunda metade da década de 1970 de dois críticos: Ronaldo Miranda (Jornal do Brasil, RJ) e João Marcos Coelho (Folha de São Paulo, SP). Objetiva-se investigar as escolhas de ambos os críticos e eleger alguns acontecimentos relevantes comentados por eles. Para tanto, a pesquisa pensa estes acontecimentos como fragmentos que reorganizam o sentido histórico da produção de música contemporânea no Brasil.

Francisco Curt Lange e o Boletín Latino Americano de Música VI: publicações da crítica musical brasileira

Natália Braga
Universidade Federal de Minas Gerais – nataliabraga.nb@gmail.com

Edite Rocha
Universidade Federal de Minas Gerais – editerocha@ufmg.br

Este trabalho analisa a receptividade do sexto Boletín Latino Americano de Música (BLAM), dedicado ao Brasil, após a sua publicação e distribuição em 1947, e o impacto na crítica do seu organizador e idealizador, Francisco Curt Lange, durante a elaboração da obra. Para tal, foi realizado um levantamento documental de artigos e críticas em periódicos brasileiros do ano de 1944 a 1947, relacionando com a correspondência deste período disponível no Acervo Curt Lange UFMG. A partir desta análise documental foi possível constatar duas fases da crítica musical brasileira sobre essa publicação e seu organizador, além do reconhecimento da importância dessa obra para a música e musicologia brasileira apesar da polêmica que a envolveu.

O feminino na crítica musical de Oscar Guanabarino: análise das críticas aos concertos de Gemma Luziani

Amanda Oliveira
Universidade Federal de Pelotas – amand_oli@hotmail.com

O presente artigo propõe uma análise das críticas à pianista italiana Gemma Luziani, publicadas por Oscar Guanabarino na seção Artes e Artistas do jornal O Paiz em 1890, sob a perspectiva dos estudos de gênero. Esse é um recorte da pesquisa “O feminino na crítica musical de Oscar Guanabarino: discursos sobre mulheres concertistas na Belle Époque brasileira”, que tem por objetivo investigar como as questões de gênero estão presentes na sua crítica musical.

Periodismo, prensa y música: Recetas para una ensalada musicológica contemporánea

Teresa Cascudo (Universidad de La Rioja, España)

Resulta una evidencia afirmar que la crítica y el periodismo musicales y las fuentes primarias que los documentan, esto es, la prensa periódica, no son objetos novedosos de estudio en el ámbito de la musicología. La figura del crítico-musicólogo se consagró en el siglo XIX, pensemos en ejemplos evidentes como los de François-Joseph Fétis o Eduard Hanslick, quienes establecieron conexiones directas entre ambos campos. De hecho, desde finales del siglo XIX, el momento en el que se constituyó como disciplina académica, la musicología  consideró la crítica musical un tema de estudio por derecho propio. Poco me importa que esa consideración se tradujese en un volumen de publicaciones estadísticamente marginal con respecto a las dedicadas a otro tipo de objetos musicológicos: lo que me interesa subrayar es que crítica y periodismo musicales mantienen lazos estrechos con la musicología desde hace décadas. En los últimos años, la digitalización masiva de fuentes hemerográficas ha puesto a nuestra disposición un volumen extraordinario de documentación y ha introducido un nuevo factor que está implicando una modificación en la agenda musicológica, plasmado en el aumento del número de estudios que utilizan los periódicos como fuente primaria preferencial. Lo que me propongo en esta conferencia es compartir con los asistentes al congreso una reflexión, en parte basada en la experiencia de la edición del volumen Nineteenth-Century Music Criticism, recientemente publicado por la editorial Brepols, y en la coordinación del grupo “Música y Prensa” de la Sociedad Española de Musicología. No voy a hacer el relato de una selección de anécdotas vividas en el desarrollo de estas tareas, sino que voy a intentar señalar y explicar las principales cuestiones y desafíos que, gracias a esa experiencia, se me han ido planteando. Sobre todo, destacaré que estar ante una fuente de características tan específicas implica, según lo veo, que deberíamos sentirnos interpelados para, en consecuencia, intentar desarrollar, dentro de la musicología, una reflexión conceptual y metodológica a la hora de aproximarnos a su estudio. Lo que voy a exponer, por lo tanto, es una selección de los problemas y las soluciones que, por ahora, he ido encontrando, en el desarrollo de mis propios trabajos y en la lectura de los de de otros colegas, asumiendo, además, que mi perspectiva es la que puedo construir desde el lugar cultural, institucional, geográfico e histórico donde desarrollo mi actividad académica.

Crítica musical em tempos de guerra: a atuação de Oscar Guanabarino na imprensa carioca entre 1916 e 1919

Luciana Pessanha Fagundes (Universidade Federal Fluminense)

Nas últimas décadas do século XIX, o crescimento urbano propiciou uma ampliação do espaço dedicado às artes e à música nos jornais cariocas, e, mesmo com a política mantendo seu lugar privilegiado nas folhas, outras práticas culturais receberam colunas especiais com o objetivo de acompanhar esse florescimento. O jornal republicano O Paiz foi um dos primeiros a criar uma coluna especial dedicada ao mundo das artes, sob o título Artes e Artistas, que contou com a contribuição de nomes relevantes do cenário cultural carioca, como Oscar Guanabarino de Sousa Silva. Alvo de poucos estudos, porém peça central no surgimento da crítica musical e artística no Brasil, Guanabarino atuou durante quase meio século – de 1879 a 1937 – na imprensa carioca, escrevendo críticas de arte. Em suas colunas abordava não apenas a música, mas também teatro, arquitetura e artes plásticas. Esta apresentação tem como objetivo analisar a produção do crítico nos grandes jornais cariocas O Paiz e Jornal do Commercio, entre 1916 e 1919, bem como, sua breve atuação no comando da revista Música, publicada entre 1917 e 1918. O período marca a estreia do crítico no Jornal Commercio (setembro de 1917), com a coluna Pelo Mundo das Artes, publicada na primeira página do prestigioso jornal. A partir de tais periódicos, tencionamos analisar o lugar ocupado pelo crítico na imprensa carioca. No contexto musical, temos vários eventos importantes que vão atrair a atenção de Guanabarino, e que pretendemos analisar, são eles: a mudança na direção do Instituto Nacional de Música, assumindo o cargo o polêmico Abdon Milanez; a estadia do músico francês, Darius Milhaud no Brasil (entre os anos 1917 e 1918), como adido cultural da França; e as apresentações do músico polonês Arthur Rubinstein no Rio de Janeiro (1918). Cabe lembrar também outro evento que mobilizava intensamente a sociedade brasileira: a Primeira Guerra Mundial. Suas repercussões no mundo da música são habilmente colocadas por Guanabarino, que durante esse período (1914-1918), atuou intensamente em prol da causa aliada. Assim, nossa análise sobre Guanabarino foca, não apenas sua atuação na imprensa carioca, circulando entre seus principais periódicos, mas também todo um debate sobre influências estéticas e movimentos nacionalistas que varriam a sociedade carioca no momento.

A crítica musical como objecto de estudo: alguns pontos de referência

Paulo Ferreira de Castro (CESEM/NOVA FCSH, Lisboa)

Tanto quanto nos é dado observar, a crítica musical tem servido maioritariamente aos pesquisadores como fonte de informação sobre questões historiográficas de tipo “factual”, ou como meio de ilustração no domínio dos estudos do que se poderá chamar a história da recepção musical, estudos esses, aliás, em estado bastante incipiente na musicologia em língua portuguesa. O que parece faltar, sobretudo, no estado actual da pesquisa musicológica, é, por assim dizer, uma abordagem verdadeiramente crítica à crítica musical, no sentido em que, como qualquer outro género literário, a crítica obedece a preceitos, pressupostos e constrangimentos próprios, cuja especificidade deve ser ela mesma objecto de reflexão. Por outras palavras, o pesquisador não pode dispensar-se de se interrogar sobre a natureza das tipologias textuais (ou seja, necessariamente, intertextuais) na sua aproximação ao que geralmente se entende por um artigo de crítica; como não pode permitir-se ignorar toda uma ecologia da prática crítica, envolvendo não apenas a dimensão informativa no seu sentido hermeneuticamente mais trivial, mas sobretudo a complexidade (e por vezes, a opacidade) da relação multidimensional entre o autor da crítica, o seu objecto, o seu propósito, o seu medium, o seu leitor, e porventura o seu efeito. Do mesmo modo que a “objectividade” de um qualquer relato histórico não pode deixar de surgir condicionada pelo estatuto pragmático do relator (e do leitor), nenhum estudo sobre crítica musical pode deixar-se seduzir pelas quimeras da “imparcialidade” do discurso crítico e da potencial transparência dos conteúdos. Poder-se-ia mesmo afirmar que, neste domínio, a imparcialidade e a transparência não passam, em geral, de preconceitos tacitamente partilhados, e por isso mesmo, tornados mais ou menos invisíveis, os quais exigem um verdadeiro questionamento sobre o “não-dito” do discurso crítico.
Nesse sentido, a presente palestra traz à discussão diversos tópicos relacionados com o trabalho musicológico em torno do pensamento crítico: a emergência deste campo de trabalho no quadro dos estudos musicais, a definição do seu objecto de estudo, os problemas conceptuais e epistemológicos suscitados pela pesquisa, as metodologias utilizadas e as dificuldades concretas a ultrapassar, tomando como domínio prático de aplicação um estudo em curso sobre a história da crítica musical em Portugal.